Normalmente, quando escrevo alguma coisa, seja aqui seja no meu diário gráfico, há sempre uma de duas motivações que me leva a isso: ou estou indignado com alguma coisa que acho meritória de ser denunciada ou estou satisfeito com um determinado facto ou acontecimento. Desta vez não sei bem. Talvez seja um misto dos dois, como também algumas vezes o é…
Enquanto punha a minha leitura em dia com o suplemento Ípsilon, do Público (o único jornal que compro todas as semanas), correspondente ao dia 20 de Novembro, deparo-me com um artigo sobre um dos mais brilhantes realizadores da história do cinema, Francis Ford Coppola, a propósito do seu mais recente filme “Tetro“.
Depois de uma carreira na qual constam “monstros” como a trilogia “The Godfather“, “Apocalypse Now” ou “Dracula“, este mais que conceituado realizador não teria certamente problema algum em conseguir que qualquer estúdio produzisse um filme seu. Ou assim pensamos nós…
A verdade é que, logo a seguir a ter ganho uma mão cheia de Oscars com a segunda parte de “The Godfather”, Coppola teve sérias dificuldades em conseguir produzir o seu próximo filme, conseguindo apenas que os estúdios e os produtores se rissem na cara dele acusando-o de ser megalómano e não saber no que se estava a meter. Ainda assim Coppola não desistiu dele, acedeu às suas ditas intenções megalómanas e acabou por pagá-lo quase inteiramente do seu próprio bolso. Este filme era apenas e só “Apocalypse Now”…
Finalmente, vinte anos depois, “Apocalypse Now” recebe o respeito que lhe é merecido e, as mesmas pessoas que disseram que fazer este filme seria um acto de loucura, dizem hoje que Coppola já não faz filmes como antigamente. Vá-se lá perceber isto…
Coppola acrescenta: «Levou vinte anos apara dizerem que “Apocalypse Now” tinha valor, e provavelmente vai levar outros vinte para admitirem que “Youth Without Youth” é interessante. Aí vou estar morto (…). Mas já não me ralo com isso. Não tenho agente, nunca tive, não preciso de dinheiro, não estou a tentar enriquecer, não quero ter uma carreira, ninguém me telefona a perguntar se quero dirigir o “Spiderman 3″.»1
Ora, com toda esta história sobre Francis Ford Coppola onde quero eu então chegar? Apesar de em menor escala e num contexto diferente, estes são exactamente os mesmos problemas que um cineasta tem de enfrentar em Portugal para poder produzir um filme, sejam curtas ou longas metragens: se só ainda realizámos 2 ou 3 filmes dizem-nos que temos pouca experiência, se já temos bastante experiência recusam-nos na mesma deixando-nos sair com uma palmadinha nas costas consolando-nos com algo do género “Infelizmente nós não temos condições para o produzir, mas tenho a certeza que com o vosso currículo não há de faltar quem queira!”, já para não falar na suposta falta de dinheiro. Como Pedro Costa contou em entrevista ao “Actual”, «(…)tive a prova de quão absurdos e corruptos são estes tempos quando, logo de início, tentei encontrar mais 5 mil euros em Portugal. Fui pedir a um senhor importante do sector privado: “O meu amigo deve estar a brincar! Esses números não são interessantes.”. Que fosse para casa e refizesse o orçamento para 50 mil…Repeti-lhe que só precisava de 5 mil. Nunca mais tive notícias do sujeito.»2
Olhando para estas duas situações que acabei de reescrever, e sabendo a vontade e o gosto enormes que nós aqui na Nefasto temos em fazer cinema, não posso deixar de ter um bocado de medo ao que nos espera cada vez que tentamos embarcar na produção e realização de um novo filme. Como já disse, temos a vontade, temos a paixão, mas aparentemente isso não é suficiente. É claro que, à partida, quando nos metemos nesta aventura de fazer cinema, já sabíamos que a maior parte do dinheiro que ia ser preciso gastar com eles teria de sair dos nossos próprios bolsos, a fundo perdido. Mas, caramba, se um “Second Life”, “Arte de Roubar” ou qualquer outro pedaço de lixo saído da mente brilhante do Nicolau Breyner ou outro afim consegue ter milhares e milhares de euros para no fim acabarem por ser aquilo que são, porque é que nós não podemos ter 500 euros para pagar as despesas essenciais de uma curta metragem que até tem alguma profundidade de história e consegue despertar o interesse do público menos “telenovelesco” e dos festivais de cinema? Mais uma vez Pedro Costa continua sobre este assunto: «É isto o cinema português. Caiu nas mãos de incompetentes que inventam fundos manhosos e deitam dinheiro à rua em filmes que não valem nada nem rendem um tostão. Não temos salas, o nosso único laboratório está moribundo, mas ganhamos a Palma de Ouro. Vive-se entre o roubo e a esquizofrenia.». Copola acrescenta: «Uma vez perguntaram-me como era possível ter feito um filme tão aclamado como “The Godfather”, e eu respondi: risco. Não existe uma fórmula e é isso que falha em Hollywood. Os estúdios acham que podem inventar uma fórmula que garanta o sucesso comercial e falham completamente, mas não aceitam esse falhanço.».
A nós por cá só nos resta continuar a alimentar a paixão pelo cinema tentando fazer filmes com muita dificuldade mas com a certeza de que, no resultado final, essa vontade e adoração ficarão transparentes para quem os vê.


