Como já apontamos anteriormente, no fim de semana passado a Nefasto teve o privilégio de estar presente no festival CINANIMA com um filme a concurso. No entanto, nem só de cinema se fez o CINANIMA, decorrendo paralelamente às secções competitivas exposições, performances e muitas outras actividades, de entre as quais tivemos a oportunidade de assistir a um debate cujo tema era o estado do cinema de animação em Portugal.
Numa sala mais reservada, em jeito de conversa e com um número mais reduzido de interessados, juntaram-se então entendidos da matéria, animadores, jornalistas, professores e simplesmente apreciadores para discutirem este tema.
Agora que olho para este debate já da parte de fora, consigo reparar que teve duas partes principais e bem distintas. Na primeira foi introduzida a ideia de que ali não seria feito um muro das lamentações e continuar a tendência que se verifica em eventos deste género; este seria um espaço para conversar sobre o que está mal mas, principalmente, o que de melhor temos no paÃs nesta área. Devo confessar que o discurso do interveniente nesta parte do debate foi o que mais me cativou, principalmente porque já estou um pouco farto de ouvir as pessoas lamentarem-se que “não há apoios”, “não há dinheiro”, “não há condições” ou que “no estrangeiro é que é bom”. A verdade é que as pessoas que dizem estas coisas falam sem conhecimento de causa, pois é bastante mais fácil falar sem saber e rezar para que se acerte em uma ou duas coisas do que realmente ir procurar e falar com quem sabe. Para corroborar esta noção, uma das participantes deste painel que fazia parte também do júri de um dos prémios do CINANIMA e que veio de Inglaterra, fez reparar que a nossa situação não é tão negra quanto a pintam. Se reparamos bem podemos constatar que Portugal tem instituições pertencentes ao estado que apoiam a produção e subsidiam o cinema de animação, como o ICA, o Ministério da Cultura e a RTP, algumas produtoras como a Animanostra também o fazem, tem um programa de transmissão regular na RTP2 (Onda Curta) que difunde curtas metragens, muitas delas de animação, e ainda conta com a presença de vários festivais de cinema com renome internacional, como é o caso do CINANIMA, que é um dos melhores do mundo. Por outro lado, em Inglaterra o estado não dá qualquer apoio ou financiamento aos animadores e realizadores nem existe um único programa dedicado ao cinema de animação ou à s curtas metragens, ficando tudo nas mãos dos realizadores e produtoras independentes. É certo que, mesmo tendo alguns apoios e condições por parte do estado para a realização de cinema de animação, nunca é suficiente para o fazer livremente, sem mais preocupações finianceiras, mas isso suspeito que nunca será.
Na segunda parte deste debate surgiram então as perspectivas menos coloridas. Tal como o interveniente desta parte referiu, e bem, apesar de termos uma boa perspectiva do presente, passado e futuro, com tendência para melhorar, o cinema de animação, pelo menos em Portugal, sempre foi visto pela maioria do público como o irmãozinho mais novo do Cinema, aquele que é muito engraçado e faz umas coisas com piada, mas nunca chega a ser adulto e sério. Ora, isto só leva a que duas coisas aconteçam: o descrédito deste tipo aumenta e, consequentemente, a vontade de financiá-lo, por parte do estado e das produtoras, diminui.
Outro dos grandes problemas que só contribuem para retardar o crescimento do cinema em Portugal é um facto que ultimamente tenho reparado ao ir aos festivais e ao ver o programa Onda Curta na RTP2; festivais como o CINANIMA, o Imago e o Curtas de Vila do Conde fizeram uma parceria com este programa que consiste na aquisição dos direitos de transmissão televisiva dos filmes seleccionados pelo júri deste prémio. O problema não é ser gasto dinheiro para este efeito, em vez de ele ser usado para ajudar na produção de novos filmes, porque um filme depois de produzido se não for promovido e divulgado acaba por morrer na escuridão de uma gaveta. O problema é o seguinte: juntando os vencedores do prémio Onda Curta nos festivais Curtas de Vila do Conde, Imago e CINANIMA deste ano, fazendo um total de 16 filmes comprados, encontramos 8 franceses, 2 polacos, 2 alemães, 1 holandês, 1 peruano, 1 canadiano e 1 húngaro. Assim, se é verdade que aplaudo o facto de, num paÃs tão pequeno como o nosso, existir um programa que se dedica e investe em cinema de animação e curtas metragens, e que sobreviveu tantos anos e continua a sobreviver, as palmas desaparecem prontamente ao reparar que nem um único filme português foi escolhido para ser adquirido e exibido na televisão nacional…
Ao chegar ao fim deste debate, não pude de deixar de sentir que neste tipo de conversas e exposição de ideias nunca se chega realmente a conseguir encontrar soluções para os problemas que existem. No entanto, como se costuma dizer, o primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que se tem um e conseguir falar dele abertamente de maneira a se identificar aquilo que está bem ou mal, o que se pode ou não corrigir e quais os caminhos a seguir a partir daÃ.
Finalmente, e o que me parece uma conclusão muito acertada, é que o cinema de animação em Portugal nunca esteve melhor. Há cada vez mais pessoas a fazer animação, cada vez mais filmes e cada vez mais qualidade (só para o CINANIMA concorreram cerca de 700 filmes!). Apenas duas coisas nunca mudaram, nem me parece que vão mudar: continuam a haver pessoas que se lamentam por não terem condições ou dinheiro para fazerem cinema de animação e divertem-se a descarregar as frustrações pessoais dizendo que a animação em Portugal está muito mal, e continuam a haver pessoas que não deixam que nada interfira com a vontade de fazer animação, agarram naquilo que têm e fazem aquilo que gostam.


