Atenção: este artigo aborda um tema de natureza técnica. Procurei mantê-lo acessÃvel a um número considerável de pessoas, mas poderá, ainda assim, aborrecer severamente os visitantes mais desinteressados pelo desenho e programação para a Web.
Para os mais atentos, a proximidade do lançamento da terceira versão do CSS (Cascading Style Sheets) não é novidade alguma. Para os que não fazem ideia o que seja CSS, eis uma breve e algo atabalhoada explicação: aquando das primeiras aproximações ao design para a Web ou, por outras palavras, da ponderação da apresentação gráfica de um determinado sÃtio, os primeiros webdesigners depararam-se com um sério problema: as opções de formatação eram bastante limitadas, não deixando liberdade de criação alguma, para além das ocasionais combinações entre cores e meia-dúzia de tipos de letra diferentes. Essa situação alterou-se um pouco com o surgimento do CSS, uma linguagem de formatação que permite uma manipulação considerável de elementos gráficos, e que está por trás de 67% da totalidade das páginas na Internet.
Algo esperada há já algum tempo, a terceira versão do CSS foi recentemente anunciada, e o seu desenvolvimento tem sido amplamente acompanhado pela generalidade dos webdesigners e programadores para a web. Há bastantes novidades, algumas das quais poderão representar uma mudança significativa no rumo que o desenho para a web tomará, ainda que essa mudança possa demorar algum tempo. Estas são as que aguardo com maior expectativa…
Formatação de Texto

Algo que poderá surpreender aqueles que nunca tiveram contacto directo com esta linguagem é o facto de, passados tantos anos de desenvolvimento Web, nos quais assistimos a um crescimento exponencial das potencialidades desta, e ao alargamento rápido e acentuado das suas capacidades de apresentação, os designers continuarem limitados ao uso de meia-dúzia de tipos de letra, considerados safe-for-web. Isto acontece porque os tipos de letra usados por um sÃtio web devem estar instalados no computador do visitante, para que este os consiga visualizar correctamente. Naturalmente, e para que a integridade da informação seja salvaguardada, um designer pode apenas esperar de um visitante que possua os tipos de letra que o seu sistema operativo traz por defeito – ou seja: uma ninharia.
É verdade que há modos de contornar essas limitações, mas nenhuma delas é realmente satisfatória – por questões de compatibilidade, ou por questões de integridade, usabilidade e tempo de carregamento, estas não são opções viáveis na grande maioria das situações.
A terceira versão do CSS promete resolver, finalmente, esse problema, permitindo ao webdesigner alojar os tipos de letra no seu servidor, de onde estes são carregados directamente, eliminando assim a dependência do sistema do visitante que até aqui se verificava.
Fundos Múltiplos

Pessoalmente, uma das funções que aguardava com maior ansiedade. Para alguém muito habituado a trabalhar com camadas (layers), uma das minhas maiores frustrações face ao CSS sempre foi a impossibilidade de sobreposição de imagens de fundo. O sÃtio da Nefasto, por exemplo, faz uso do triplo dos blocos de imagem que serão necessários, uma vez implementada a terceira versão, para sobrepor as camadas vistas no topo desta página: a textura de papel, o logótipo em aguarela e as nuvens.
Cantos Redondos

Uma funcionalidade suportada por alguns browser (com destaque para o Firefox) há já algum tempo, mas só agora oficialmente anunciada: o uso de cantos arredondados, aplicados directamente através do CSS. Nos primórdios do desenho para a Web, e até há bem pouco tempo, dispor informação num bloco quadrado, mas sem vértices, era uma tarefa penosa, sendo necessário recorrer a imagens, sobre as quais era introduzido texto.
Com a implementação da função border-radius, os vértices de qualquer bloco podem agora ser facilmente suavizados, de acordo com a amplitude desejada, e para cada canto individualmente.
Colunas de Texto

Um problema capaz de roubar anos de vida, e que não raras vezes me fez perder horas de desespero em frente ao computador, é a disposição do texto, em HTML, por colunas. Também aqui há alternativas possÃveis, como sendo o uso de tabelas, ou blocos de texto independentes, dispostos lado a lado. Mas esta solução não é de todo aceitável, uma vez que não contempla texto de dimensão variável – o webdesigner deve sempre saber, à priori, o tamanho do texto, para que o possa dividir manualmente pelos três blocos de texto. É isso ou recorrer a complexos blocos de código, que efectuem a referida divisão automaticamente, algo francamente escusado.
O CSS3 vem facilitar o processo, melhorando ainda a adaptabilidade do texto ao layout: o webdesigner define a divisão de um bloco de texto pela largura de cada coluna, ou pela quantidade de colunas desejada, sendo as restantes propriedades ajustadas de acordo com o(s) parâmetro(s) definido(s) pelo utilizador.
Módulo de Voz

Quem alguma vez teve contacto directo com um internauta invisual saberá certamente que estes dispõem de um browser bastante peculiar, que interpreta toda a informação contida numa página web, e usa um sistema de voz sintetizada por computador para reproduzir o conteúdo de interesse para o utilizador.
Ora, é perfeitamente lógico que, se um webdesigner se encarrega da estilização visual da informação, também deva possuir controlo sobre a leitura que é feita da sua página. A segunda versão do CSS fez uma primeira aproximação a este conceito, mas só com o CSS3 esse módulo amadureceu, e é agora uma das caracterÃsticas mais interessantes da linguagem.
É assim possÃvel definir, para blocos de texto especÃficos, atributos como o volume, o balanço, o sexo do locutor, o seu timbre de voz e a velocidade da dicção. Ainda que possa parecer trivial, a aplicabilidade deste módulo é imensa, permitindo, por exemplo, enfatizar determinados blocos de informação pelo controlo do volume, melhorar a noção de dispersão da informação para o visitante invisual, através do balanço ou humanizar um diálogo de texto, através da manipulação das caracterÃsticas vocais de cada um dos locutores.
Quebras de Linha

Não é certamente a maior invenção de todos os tempos, mas poupa algum esforço, e muitos miolos também. São problemas muito familiares para quem faz desenho editorial, mas não deixa de incomodar designers para a Web: quebras de linha, hifenização, viúvas e palavras demasiado longas. O CSS3 continua a não conseguir contemplar a grande maioria, principalmente a hifenização (algo bastante difÃcil de implementar, devido à sua especificidade e dependência da lÃngua usada), mas encontrou finalmente um modo de contornar palavras demasiado longas para a caixa de texto que as contém.
Na imagem acima é perceptÃvel a má interpretação do CSS2 (à esquerda), no que a palavras exageradamente longas diz respeito. As únicas soluções possÃveis passavam por aumentar a dimensão da caixa (sabendo que esta nunca seria suficientemente larga para conter cadeias de caracteres que podem ser virtualmente infinitas), ou por esconder o excesso, cortando muitas vezes a palavra a meio.
Este problema tem-se verificado particularmente em situações nas quais é permitido o envio de informação por um utilizador, devido à imprevisibilidade do conteúdo inserido. Teoricamente, o visitante poderá introduzir um texto bastante extenso sem recorrer a um único espaço, o que poderia arruinar totalmente o layout da página. A função word-wrap agora apresentada permite a introdução automática de quebras de linha, sempre que necessárias.
Outras Novidades
Muitas são as novidades introduzidas por esta nova versão, mas nem todas representam uma melhoria potencial da qualidade da informação apresentada na Internet. Arriscaria até prever a massificação de determinadas funções em contextos amadores, resultando na sua banalização, e na consequente deterioração da informação apresentada na Internet. É previsÃvel, por exemplo, que, no espaço de 2 anos, comunidades on-line como o MySpace ou o Hi5 estarão severamente povoadas de texto com sombras múltiplas…

Em jeito de conclusão, resta apenas referir que, apesar de as novidades serem bastantes, e representarem um aumento considerável dos recursos à disposição de qualquer webdesigner, fica sempre a sensação de que muita coisa ficou para trás. Considerando que a implementação do CSS3 poderá demorar anos, até que a grande maioria dos browsers disponÃveis suporte totalmente as funções agora implementadas, acaba por pairar sobre este a sombra dos problemas por contornar.
Claro que, apesar de tudo, todo o desenvolvimento é louvável, e as funcionalidades já apresentadas estão longe de representar a totalidade do que está para vir. Resta-nos aguardar.


