Marca Continente

Marca Continente

Quando, há um par de anos, o Continente decidiu repensar o desenho da sua gama de produtos, lembro-me de pensar que tinha sido um passo em falso. Na altura, falei disto com alguns colegas, e a opinião generalizada parecia ser a de que algumas das embalagens não tinham sido devidamente pensadas, particularmente ao nível cromático. Se por um lado o Continente procurou normalizar o aspecto gráfico dos seus produtos, algo até então completamente esquecido pela multinacional, atribuindo-lhes um esquema de cores de acordo com a categoria a que pertence cada produto, por outro não havia como negar que uma garrafa de água com rótulo e tampa em tons de vermelho parecesse incrivelmente despropositado. Esse era um problema que, parecia-me, acabava por se sobrepor a todo o conceito da mudança, por muito válidos que fossem os motivos que a originaram – não raras vezes dei por mim a desviar o pacote do leite, acreditando tratar-se de vinho ou sumo, e a procurar a embalagem branca e azul ou verde (consoante magro ou meio-gordo)1 a que desde cedo me habituei.

Ocorreu-me, no entanto, no outro dia, se não seria esta relação com o aspecto exterior dos produtos que consumimos puramente cultural. Por outras palavras, não nos teremos nós acomodado de certa forma ao aspecto das coisas, e criado para elas um modelo que, se quebrado, pode interferir com a correcta percepção desse produto? Alguns destes condicionamentos podem ser parcialmente entendidos como naturais, e resultantes do acto de observação do universo – é natural, por exemplo, associar o azul à água, o branco ao leite e o roxo ao vinho -, mas até aí se faz sentir a pressão cultural – a água que ingerimos, por exemplo, é incolor, qualquer associação cromática é feita por indução2.

Esta questão não é nova, e tem sido exaustivamente abordada por psicólogos da percepção desde há largos anos – particularmente no que diz respeito à forma como diferentes culturas se relacionam com as mesmas cores de modo distinto – mas ganha novas dimensões quando interfere com o processo de criação de um designer gráfico. Se por um lado é obrigação do designer certificar-se de que a comunicação entre o produto e o seu utilizador final é bem sucedida, por outro parece muito redutor acreditar que há relações causa-efeito imutáveis na produção gráfica. Aceitar isso é, de certo modo, minar a evolução do design gráfico enquanto disciplina, enquanto profissão e enquanto serviço de interesse público.

O rebranding da gama de produtos da marca Continente3 tem uma intenção muito clara, e acredita nela ao ponto de estar disposto a reconfigurar a expectativa do seu público-alvo, aquilo que o utilizador final espera que seja um pacote de leite. Nesse sentido, a capacidade de comunicar um pacote de leite como sendo um pacote de leite não depende unicamente da expectativa ou da norma cultural, e é apenas mais um factor, cuja relevância no processo criativo pode ser minorada sem prejuízo do efeito surtido – arriscaria mesmo a dizer que tal não acontece vezes suficientes.

  1. Cores partilhadas, apesar de não necessariamente nesta ordem, por mais do que uma marca de leite, até há relativamente pouco tempo.
  2. O mar, que sabemos ser constituído por água, é azul, logo parece lógico associar-se à água potável a cor azul.
  3. Creio que o rebranding do Continente foi entregue à EuroRSCG, apesar de não estar totalmente seguro disso.
Ana 18 de Novembro, 2009 às 12:33

Não posso deixar de concordar com a opinião inicial relativamente ao despropósito da imagem de alguns produtos marca Continente. Acho que compreendi a lógica de cores (Azul representando o saudável e o Vermelho o menos saudável – ou seja, a impregnação social e cultural mantém-se), mas acontece que na prática não faz sentido exactamente que uma garrafa de água tenha um rótulo vermelho tal como um naco de bacon. Eu pessoalmente, que dou alguma importância aos rótulos e ao seu aspecto na medida em que são sempre reflexo de uma intenção, detesto ver o meu armário recheado com produtos de rótulo vermelho. Portanto, mais uma vez para mim, uma simples consumidora, nota negativa para a campanha de reformulação da imagem dos produtos Continente.