Há já algum tempo atrás falei aqui do fenómeno do trabalho especulativo. Na altura usei como exemplo o crowdSPRING, uma espécie de mercado de marcas, no qual se vendem logótipos anexados a nomes de empresas que não existem, mas que o comprador pode registar após a aquisição do referido logo. Não querendo insistir demasiado nisso, digamos que é um local onde designers gráficos podem libertar toda a sua criatividade e direccionarem o seu espírito inovador para a criação de logótipos para empresas fictícias para as quais inventam um qualquer nome, na esperança de que alguém veja nisso uma excelente oportunidade de começar um negócio. Esse problema, no entanto, está há muito visto e debatido – adiante…

Hoje cruzei-me, numa rotineira passagem por um desses sítios que condensam o melhor do design gráfico actual com o intuito de atrair visitantes e, por consequência, gerar algum lucro, com alguns logótipos desenhados para um site semelhante chamado BrandStack (creio que anteriormente conhecido como IncSpring) e apercebi-me da distorção extrema do conceito de design inteligente que resulta deste tipo de serviços. Alguns dos logótipos desenhados para este e outros sítios semelhantes correram a Internet, sendo indiscriminadamente chapados em blogs e design showcases como exemplos de superioridade criativa na área do desenho de identidade. Confesso que, de início, e acreditando tratarem-se de soluções para problemas reais, reconheci valor em alguns desses logos – o da Piano Forest e o da Horror Films são alguns dos que melhor me recordo.

Piano Forest

Horror Films

Fossem estes logótipos propostas para a identidade de empresas reais, cujos nomes reais fossem, efectivamente, “Piano Forest” e “Horror Films”, e seriam de facto soluções inteligentes, na forma como retratam subtilmente o nome das respectivas empresas, fundindo num trocadilho visual as duas palavras que compõem os nomes das respectivas empresas.

No entanto, ambos estes logótipos são, infelizmente, exemplos gritantes de design invertido: o problema é deduzido de uma solução gráfica mais ou menos chico-esperta, geralmente constituída pelo cruzamento de representações gráficas de objectos, pessoas ou situações distintos. Em doses aceitáveis (leia-se: quase nada), a fórmula passaria facilmente despercebida. No entanto, uma visita aos “favoritos” da BrandStack (uma espécie de hall of fame onde os melhores logótipos são seleccionados pela administração do site) permite-nos perceber melhor as proporções ridículas que essa fórmula tomou, alimentada por jovens designers atraídos pela promessa de dinheiro fácil.

Assim, é sem um pingo de ironia que a BrandStack coloca, entre os seus logótipos favoritos, o belíssimo cruzamento entre uma raposa e uma mola que é Springfox, ou a incompreensível analogia que representa a mistura de uma ervilheira com um insecto, apenas superada pelo seu próprio nome: Peansect. Entre outros…

Spring Fox

Picship

Maritime Law

Bottle Rocket

Float Quotes

Donut Disturb

MonKey

BBQnotes

Peansect

Nalguns trocadilhos, a mediocridade chega a ser ofensiva, como na extracção da palavra inglesa para chave da palavra MonKey, acompanhada de uma ilustração insolente representando o cruzamento forçado de uma chave com um macaco. Outros parecem-me simplesmente nomes e logótipos terríveis para qualquer empresa, mesmo que o seu mercado seja o transporte de fotografias por via marítima, a confecção de donuts extremamente irritantes ou a comercialização de moleskines comestíveis para grelhar. No entanto, este é o tipo de design gráfico que a venda de empresas criadas para dar sentido a uma piada visual permite. Por isso continuamos a ser esbofeteados com estes logos e por isso nos tentam convencer de que se tratam de exemplos dos elevadíssimos padrões de qualidade que o design gráfico dos nossos dias atinge.

P.S.: Há uns dias, o Mário Moura (que insisto em referenciar) falava no seu blog de desenrascanço. Não vejo exemplo mais esclarecedor do que qualquer um destes logótipos de que o desenrascanço não é novidade nem exclusividade nacional.

Pedro Vaz 5 de Fevereiro, 2010 às 17:10

Este é um assunto que me é muito familiar, não por estar ligado a estas condutas mas por ter sido um dos temas dos quais me debrucei no estado da arte do relatório da licenciatura. Na altura quando pesquisava sobre o assunto, que para nós já não era novidade, embrenhei-me pelos meandros que envolvem estas práticas duvidosas. Do que me apercebi foi que em muitos serviços (sites da especialidade) o esquema é muito bem montado, o serviço é organizado, estandardizado e de forma a que todo o serviço se torne um processo automático, ser precisar de gestão. Em muitos casos, é um serviço semelhante ao E-BAY, escolhe-se o Logo, paga-se e já está.
Bem, até aqui não há novidade, mas foi ai que descobri a maravilha que muitas “empresas” fizeram, e mais escandalizado fiquei quando soube que a HP era uma delas! Neste caso, desenvolveu um programa/aplicação “LOGOMAKER” -http://www.logomaker.com/ que acaba com o problema de ter de escolher um dos nomes disponíveis do catálogo, com uns campos a preencher, a escolha de cores desejadas e a selecção de algumas imagens seleccionadas ao gosto do freguês, o programa gera o Logótipo automaticamente, só tendo o utilizador no final de desembolsar da quantia pedida.
Bem, ridícula e supostamente, o serviço acaba com uma das acusações que nós profissionais fazemos destes serviços. Sim, neles existe originalidade, porque o cliente sente que criou algo, segundo o seu gosto e preferência. Claro que não deixa de ser uma desculpa camuflada. É obvio que não existe processo criativo nenhum, muito menos originalidade. Mas o que é que isso interessa afinal!? O importante é que o cliente sente que tem todos estes atributos, e melhor! Não só sente que ele é o detentor dessa criatividade, como também foi o criador do seu Logótipo.
A prova do sucesso é o crescimento destes serviços como cogumelos! No caso do LOGOMAKER, o sistema goza de boa saúde e cresce a olhos vistos.