Uma boa percentagem dos designers gráficos e/ou multimédia em actividade em Portugal já o terá sentido por diversas vezes, mas não deixa de ser uma amarga novidade o olhar, parte reprovação, parte pena, de quem em má hora pergunta: então e você, faz o quê? Não se sente com tanta intensidade no litoral, por certo, mas, no interior do país, o designer está condenado, pelo menos por mais meia-dúzia de anos, à infeliz condição de profissional menor – talvez até nem profissional, uma espécie de técnico de composição gráfica semi-amador que, por algum motivo, se perdeu na heróica caminhada rumo à profissionalização nas nobres áreas da saúde, da engenharia ou, porque não, da arquitectura.

Acabo sempre por me arrepender, mas lá vou respondendo honestamente à pergunta. Hoje foi no consultório, para desilusão do médico, que se entusiasmava já quando lhe disse que tirava um mestrado em Coimbra – “Ai sim? Óptimo! Então e em quê?”. Era previsível que a reacção à minha resposta fosse um seco ah, seguido de um desviar do olhar e de conversa, e que acabasse comigo a desejar ter respondido qualquer coisa como engenharia bio-mecânica e macro-electro-técnica aplicada à medicina aeroespacial.

O que não falta por esse país fora são pais amargurados com a escolha desvirtuosa dos filhos. Aliás, como não faltam também pessoas que não concebam, de modo algum, que alguém possa optar por se tornar designer gráfico, sem que a isso tenha sido obrigado. Ou pais que, na feroz batalha de medir o sucesso das suas sementes, acabem a dizer que o filho é formado em computadores – vá alguém acreditar que é uma profissão a sério, com engenheiro à frente do nome. Tudo isso me entristece um pouco, e me faz sentir um bocadinho estrangeiro.

Ana Rute 15 de Novembro, 2009 às 13:30

Da parte da Comunicação Organizacional com absoluta e terna solidariedade… fazendo votos de que um ou outro espécime de especial genialidade venha a depositar-nos uma bandeira no mapa das profissões intelegíveis.

Pedro Vaz 8 de Junho, 2010 às 17:26

Quantas vezes já não sentimos esse amargo de boca. Percebo que no interior se sinta ainda com mais frequência esse desconforto com uma profissão tão esquisita que importa um estrangeirismo para se definir. Isso lá cabe na cabeça de alguém? É talvez uma forma mais “apanisgada” de dizer que o rapaz faz uns desenhos e umas coisas com letras.