Uma boa percentagem dos designers gráficos e/ou multimédia em actividade em Portugal já o terá sentido por diversas vezes, mas não deixa de ser uma amarga novidade o olhar, parte reprovação, parte pena, de quem em má hora pergunta: então e você, faz o quê? Não se sente com tanta intensidade no litoral, por certo, mas, no interior do paÃs, o designer está condenado, pelo menos por mais meia-dúzia de anos, à infeliz condição de profissional menor – talvez até nem profissional, uma espécie de técnico de composição gráfica semi-amador que, por algum motivo, se perdeu na heróica caminhada rumo à profissionalização nas nobres áreas da saúde, da engenharia ou, porque não, da arquitectura.
Acabo sempre por me arrepender, mas lá vou respondendo honestamente à pergunta. Hoje foi no consultório, para desilusão do médico, que se entusiasmava já quando lhe disse que tirava um mestrado em Coimbra – “Ai sim? Óptimo! Então e em quê?”. Era previsÃvel que a reacção à minha resposta fosse um seco ah, seguido de um desviar do olhar e de conversa, e que acabasse comigo a desejar ter respondido qualquer coisa como engenharia bio-mecânica e macro-electro-técnica aplicada à medicina aeroespacial.
O que não falta por esse paÃs fora são pais amargurados com a escolha desvirtuosa dos filhos. Aliás, como não faltam também pessoas que não concebam, de modo algum, que alguém possa optar por se tornar designer gráfico, sem que a isso tenha sido obrigado. Ou pais que, na feroz batalha de medir o sucesso das suas sementes, acabem a dizer que o filho é formado em computadores – vá alguém acreditar que é uma profissão a sério, com engenheiro à frente do nome. Tudo isso me entristece um pouco, e me faz sentir um bocadinho estrangeiro.


