Só muito recentemente tomei consciência da vaga assombrosa de reality shows (ou reality contests) que tem invadido as televisões norte-americanas nos últimos anos, e cujo tema central revolve em torno do universo do design. Dei-me conta disso mesmo ao cruzar-me, acidentalmente, com um episódio de um desses programas, em que uma dezena de jovens aspirantes a designers de moda competiam entre si, criando peças de vestuário na tentativa de impressionar um painel de júris constituÃdo essencialmente por designers de moda profissionais. Pelo que consegui percebi, cada programa é um exercÃcio novo, semelhante aos que um estudante de Design de Moda poderá encontrar ao longo da sua licenciatura. Após quinze minutos de apresentação do exercÃcio, e outros quinze com um apanhado dos trabalhos, os júris discorrem sobre os vários trabalhos, argumentando os motivos pelos quais determinados trabalhos são claramente superiores, e no final eliminam o incompetente do dia. A premissa é simples, e tem sido repetida até à exaustão, para todas as variantes mais populares do design: de moda (claramente campeão, com uma mão cheia de programas diferentes, vários dos quais emitidos pelo mesmo canal), de equipamento, de produto (um dos quais, produzido e emitido pela BBC, é apresentado pelo desprezÃvel designer francês Philippe Starck), de interiores (em Portugal, uma aproximação ao formato do sobejamente conhecido While You Were Out recebeu o infeliz nome de Querido, Mudei a Casa e está pejado de intervenções de designers de interiores que em nada glorificam a posição global do design em Portugal), e por aà adiante. Tudo quanto era possÃvel transformar num reality show, foi. Excepto o design gráfico. Ou, pelo menos, assim pensava.
Na altura, preparava-me para deixar aqui algumas considerações sobre esse facto: por um lado, dando graças por o design gráfico ter conseguido escapar ileso no meio de toda esta (perdoem-me o termo) bovinização do design, por outro lamentando o facto de essa mesma área desmerecer de tal modo a atenção pública, que nem para programas de tão baixo teor intelectual parece servir. No final, contava deixar a grande lamentação: a de que, em todo o caso, mais tarde ou mais cedo algum programador televisivo se lembraria de dizer, a meio de uma reunião e entre mais dúzia e meia de propostas iguais: “olha lá, e se isto em vez de ser com fatos, fosse com capas de revistas e assim?”. Por falta de tempo, não escrevi esse artigo na altura, e agora é demasiado tarde. Sem que mereça ainda um formato próprio, pelo menos dois franchises televisivos viraram já as suas atenções para as artes gráficas para impressão: ao terceiro episódio de Work of Art: The Next Great Artist, um reality show ligado ao mundo da arte saÃdo da mente de (pasmem-se) Sarah Jessica Parker (nome indissociável desse maravilhoso naco de televisão que é O Sexo e a Cidade), os artistas a concurso são convidados a ocupar a posição de um designer gráfico e desenhar a capa para uma nova edição do clássico de H. G. Wells, The Time Machine – edição essa que será editada brevemente, com a capa vencedora, pela Penguin Books, facto que quase chega a conferir alguma seriedade ao concurso. Num episódio de um outro concurso, Stylista, cujo objectivo e universo de actuação não são claros, os concorrentes são desafiados a desenhar uma spread de um número da revista de moda ELLE. Os objectivos dos episódios anteriores incluem vestir-se como um editor de moda ou agradar à editora da ELLE, servindo-lhe o pequeno-almoço.
É francamente assustador constatar que, mesmo nos Estados Unidos, o design gráfico é suficientemente popular para servir de combustÃvel a um subproduto do entretenimento fácil, mas não suficientemente respeitado para merecer o convite de um designer gráfico para julgar os trabalhos em qualquer um desses programas, ficando essa tarefa a cargo de estilistas, editores de moda ou artistas.
Em todo o caso, não há-de tardar até que vejamos um destes reality shows começar com “Vello, my name is Stefan Sagmeister and zis is Zi Next Big Gráfic Dizainer”.



