Começou com uma notÃcia talvez não directamente relacionada com o assunto, que relatava o modo como (esse incompreensÃvel fenómeno que é) o Twitter pagou pouco mais de quatro euros pelo pequeno pássaro ostentado na página inicial do serviço, que entretanto se transformou num Ãcone cultural reproduzido à escala mundial (não sendo um caso isolado, no que diz respeito a sÃmbolos usados pelo Twitter), e uma das principais imagens de marca do site. O preço irrisório pago pela imagem resulta do facto de esta ter sido adquirida através do iStockPhoto, um site de venda e compra de direitos de uso sobre imagens ditas de stock (imagens de livre utilização pela comunidade, gratuitamente ou mediante o pagamento de uma pequena taxa).
Surpreendentemente, não é raro encontrar empresas que confiam plenamente a sua imagem de marca a Ãcones adquiridos através de serviços semelhantes, cortando com os custos associados à criação de uma identidade (s.f. conjunto de elementos que permitem saber quem uma pessoa é) – o que, convenhamos, levanta um considerável número de sérias questões, sobre as quais prefiro não me debruçar para já.
Tudo isto me levou, na verdade, a pensar um pouco sobre um curioso fenómeno, muito frequente no seio do design gráfico em geral, mas com maior incidência no design de identidade e no webdesign, que dá pelo nome de crowdsourcing (também conhecido por trabalho especulativo), e que consiste na atribuição de uma dinâmica de concurso ao processo criativo, dando ao cliente a possibilidade de apresentar o seu projecto perante um grupo de designers independentes, espalhados pelo globo, que podem ou não optar por iniciar o trabalho, paralelamente com os restantes membros da comunidade. Os designers que aceitam o desafio competem então entre si, apresentando publicamente a sua proposta e, após a data limite definida pelo cliente, este escolhe aquela que melhor se adequa às suas necessidades. Caso mais de 25 propostas diferentes sejam apresentadas, o cliente é obrigado a escolher uma, mesmo não estando totalmente satisfeito.
A ideia pode parecer genial ao leitor mais desatento, ou ao “designer” ávido de conseguir dinheiro rápido e fácil, mas uma análise um pouco mais cuidada revela problemas que, pensando bem, são até bastante óbvios. Não querendo saturar esta ideia, é importante que não a deixemos dissolver: ao procurar um serviço de design, uma empresa não está apenas a contratar alguém com competências técnicas, está a contratar também (pelo menos, assim se espera) um serviço de consultoria. Significa isto que o designer não serve apenas para concretizar ideias, mas também para ajudar à sua formação, e ao seu abandono, quando estas lhe parecerem más decisões de design. Como em todos os negócios, um designer deve primeiro percorrer um caminho antes de chegar a profissional e, apesar da formação académica não ser estritamente necessária, é indispensável uma boa formação pessoal e visual, e é preciso conhecer não só as ferramentas, mas também os fundamentos teóricos, e os processos de acordo com os quais o design funciona.
Ao dizer que “não interessa se tens um diploma da Rhode Island School of Design ou se és uma avó do Tennessee com muito tempo livre e uma cópia do Adobe Illustrator, se o cliente preferir o trabalho da avó, o trabalho é dela”, Michael Samsom, um dos fundadores do site CrowdSpring,com, está a demonstrar que não pensou nisso. Não o podemos censurar, apenas viu uma boa oportunidade de negócio e concretizou-a. Mas a verdade é que assim começa a degradação de quase todas as áreas de negócio: há sempre alguém disposto a poupar na matéria prima e na mão-de-obra, conseguindo preços bastante competitivos, mas sem garantias de qualidade. E há sempre alguém disposto a agarrar as oportunidades criadas por essa empresa, a trabalhar em condições precárias e mal remunerado. E há sempre alguém disposto a abdicar da qualidade garantida, a troco de algum dinheiro a mais na carteira, no final do mês. Neste caso especÃfico, há muita gente disposta a trabalhar sem garantias de pagamento, já que todo o trabalho não seleccionado é tempo perdido, e muita gente disposta a comprometer-se a pagar por um trabalho de que poderá não vir a gostar. Há algo de muito errado nisto.
Depois, há o factor plágio, como constatado, na primeira pessoa, pela The Logo Factory. Muitos dos “designers” registados em sites de crowdsourcing são indivÃduos munidos de ferramentas de edição de imagem, pouca imaginação e muita vontade de fazer dinheiro fácil. Se estas são já variáveis muito propÃcias ao aparecimento de material plagiado, a situação agrava-se quando sites como o eLogoContest ignoram totalmente o problema, fazendo questão de clarificar, nas condições do serviço, que não assumem “qualquer tipo de responsabilidade pela originalidade do conteúdo submetido pelos utilizadores”. Tendo em conta que o serviço cobra uma percentagem do lucro gerado pelas vendas dos seus utilizadores, é uma alegação extremamente grave.
A solução para este problema passa pela re-educação da sociedade e pela sensibilização dos habituais clientes deste tipo de serviços, algo francamente difÃcil para um sector com a dimensão e o estatuto social do design gráfico. Ainda assim, é louvável a iniciativa de um pequeno grupo de designers no combate ao trabalho especulativo, e a tomada de posição da AIGA, certamente uma das mais influentes associações de designers a nÃvel mundial, com cerca de 22.000 membros.
Infelizmente, o design gráfico tem sofrido, na última década, golpes muito duros, e há muita gente interessada em desacreditar esta disciplina: desde o ridÃculo artigo da Forbes, que acusa o design de ser um negócio arrogante e snob, até ao desespero a que foi conduzido um dos designers do Google, perante a inflexiblidade da companhia relativamente à s decisões de design. Nesse sentido, o trabalho especulativo é apenas mais um dos ataques à integridade do sector, e deve ser combatido pacificamente, mas com veemência.





