Como viciado incorrigÃvel que sou em banda desenhada, dei por mim há pouco tempo a pegar pela milionésima vez no livro “V For Vendetta”, desde que o comprei há 4 anos atrás… É realmente uma obra soberba em muitos nÃveis e nunca me canso de o ler ou de o recomendar vezes sem conta aos meus amigos.
Mas não foi a sua qualidade que me despertou novo interesse (porque essa já estava mais que cimentada), mas sim uma parte do livro, já depois da história toda ter acabado, em que os editores tiveram a deliciosa ideia de partilhar connosco, meros mortais e leigos na matéria, algumas páginas compostas por um artigo escrito pelo próprio argumentista da série, Alan Moore, que apareceu na Warrior Magazine #17, enquanto os capÃtulos da história ainda eram publicados regularmente, em 1983. Este artigo conta, entre outras coisas, o processo criativo e a troca de ideias entre argumentista e artista gráfico até chegar à “criatura” final que é a persona conhecida por “V”.
Ora, o que me agarrou a atenção mais uma vez neste texto interessantÃssimo foi que, muitas das coisas que Alan Moore descrevia, os seus problemas, dilemas e desavenças na busca dessa tal persona, da sua história e todo o mundo que o viria a rodear, também tinham pontos em comum com o que a Nefasto, e, de uma maneira geral, todos os criativos, se deparam quando têm um desafio pela frente. No fundo, são algumas frases soltas que podem dar uma pequena ideia daquilo a que nos referimos quando falamos de “processo criativo”…
Na eventualidade de não conseguirem encontrar o artigo completo, de comprarem o livro (que eu aconselho vivamente) ou de mo pedirem emprestado (que eu não aconselho porque sou demasiado egoÃsta), cá ficam aqui então algumas passagens que achei interessantes… (perdoem-me qualquer tradução mais “ligeira” que tenha feito, mas o livro está todo em inglês. Manias de comprar versões originais…)

V For Vendetta de Alan Moore e David Lloyd
«(…) mas por mais que tentasse, não conseguia chegar a um “todo” coerente através de partes tão desconexas. Tenho a certeza que este é um sentimento com que todos os artistas e escritores estão familiarizados… a sensação de ter algo incrivelmente bom mesmo na ponta dos dedos. É frustrante e enervante e, ou se desiste perante o desespero, ou se continua.»
«Os vários fragmentos que estavam na minha cabeça de repente encontraram o seu lugar, (…) Na história de qualquer tira ou livro ou o que quer que seja, este é o momento em que recebes a tua verdadeira recompensa… o momento em que todas as meias-ideias e parvoÃsses se solidificam em algo que é mais do que a soma das suas partes e se revelam como algo inteiramente inesperado e absolutamente belo.»
«A partir de tudo o que foi dito antes, podem ter ficado com a impressão de que a criação do V foi um assunto muito frio e calculado, e, pelo menos nas suas primeiras fases, suponho que tenha sido. Só aqueles indivÃduos raros e excepcionais é que têm ideias brilhantes entregues pela musa, embrulhadas e tudo. Os restantes, nós, temos de trabalhar para as ter. Posto isto, no entanto, chega um ponto em que, pressupondo que toda a tua lógica e planeamento são de uma boa variedade, o trabalho começa a arrancar e assume vida própria. Ideias começam a surgir quase magicamente em vez de serem o resultado de um processo intelectual longo e desgastante.»
«Claro que, à medida que uma banda desenhada começa a crescer para além dos seus criadores, experiencia-se um certo nervosismo ao não saber para onde ela irá a seguir. Por outro lado, há uma quantidade massiva de excitação e criatividade em tal empreendimento despido de limites. Suponho que deve ser um pouco como fazer surf num tsunami… sentes-te maravilhosamente enquanto o estás a fazer, mas nunca é certo onde vais parar ou se vais lá chegar inteiro…»


