Esse era o equilÃbrio que se pretendia para a marca Ópera de Coimbra: garantir a associação, ainda que não demasiado evidente, com o nome da companhia, salvaguardar a elegância e nobreza da Ópera e cortar com a imagem poeirenta e pouco popular que esta tem junto dos grupos sociais mais jovens.
A favor dessa direcção jogava o peso histórico do monograma, que chega a diluir-se na história da ópera. Na era vitoriana, no final do século XIX, o monograma demarcava a posição social da burguesia – classe social que constituÃa a quase totalidade dos apreciadores de ópera da altura –, e era um sÃmbolo de poder de que apenas alguns podiam fruir. Como consequência, as regras para a sua construção eram muito rÃgidas e em circunstância alguma podiam ser distorcidas. Através da desconstrução do monograma da Ópera de Coimbra, seria possÃvel preservar a elegância da sua representação, mas cortar com qualquer ligação a classes ou estatutos e abolir a estratificação social exercida pela ópera até meados do século XX.
A partir daÃ, foram manualmente testadas possÃveis combinações dos caracteres O e C. Por dedução lógica, e sem que se pretendesse obter uma representação figurativa em particular, chegou-se à marca que viria a constar da identidade final.
O verdadeiro objectivo desta marca – e aquilo que motivou a sua concepção –, é sugerir quase dissimuladamente as iniciais de Ópera de Coimbra através de uma representação muito próxima do abstracto.
Na sua forma mais simples, desprovida de considerações filosóficas, o infinito designa aquilo que não tem limites. Se à primeira vista a definição pode remeter para um qualquer slogan gasto, não é descabido considerar que assenta particularmente bem num projecto com a ambição da Ópera de Coimbra, cujo objectivo é, se não abolir, pelo menos alargar as fronteiras da ópera em Portugal muito para além do seu raio de abrangência actual. A logomarca adquire assim, para além da representação objectiva que já possuÃa (o monograma), um valor metafórico acrescido (o conceito de infinito).
Do ponto de vista estético, também traduz o espÃrito de modernidade pretendido, veiculado pelo traço simples e desobstruÃdo. Há um só intervalo na mancha, cujo propósito é aumentar a probabilidade de percepção da letra C, e criar parcialmente a ilusão de que a marca é composta por uma linha contÃnua, que percorre o trajecto que lhe dá a forma.
Finalmente, a cor permite salvaguardar a tradição e nobreza da Ópera, conjugando o vermelho, amplamente associado aos teatros antigos por estar habitualmente presente no pano da cortina que separa o palco do público e no tecido que cobre as cadeiras da plateia, com dois registos (positivo e negativo) de cinzento.
Manual de Identidade da Ópera de Coimbra, Nefasto (2009)