Há pouco mais de dois meses falou-se, numa tertúlia informal no TAGV (Coimbra), da Internet nos nossos dias. Falou-se particularmente do fenómeno Twitter que, por suscitar sentimentos de pertença a esta ou aquela comunidade, geração ou ideia, acabou por dominar grande parte da discussão. Naturalmente, falávamos da Internet (particularmente da denominada 2.0) e não especificamente do Twitter, mas creio que isso nem sempre ficou claro, o que levou alguns dos presentes a associarem a minha opinião a uma certa carolice anti-Twitter.
Aproveito agora para trazer a discussão para aqui, e expor o meu ponto de vista a quem possa interessar. O argumento inicial será sempre este: por mais voltas que dê à cabeça, por mais informação que procure ou abertura de mente que tente ter, não consigo vislumbrar a chave do sucesso do Twitter. É claro que compreendo a força da novidade e da mobilização social, é claro que já li muita propaganda1 e é claro que tenho consciência de que apenas uma insignificante percentagem dos assÃduos utilizadores da Internet partilha desta opinião. Ainda assim, não consigo evitar sentir que há um desfasamento muito grande entre o verdadeiro potencial do Twitter, e os seus impactos social, cultural e económico2.
Esta incapacidade de reconhecer no Twitter as suas aclamadas virtudes não significa, no entanto, que me oponha ao serviço em si, ou sequer ao conceito pelo qual se faz representar. Como foi dito, e muito bem, por vários participantes na referida tertúlia, o Twitter é apenas mais uma ferramenta num universo onde o utilizador tem a oportunidade de eleger e organizar os seus recursos do modo que melhor entender. Pode ser, como qualquer outro serviço, bem ou mal usado, mas tal não deve interferir no julgamento do seu potencial. Esta é também a minha opinião.
Tal não é, no entanto, relevante para esta discussão em particular, já que não procuro sequer julgar ou questionar os propósitos do Twitter. Procuro, isso sim, entender a motivação por trás da sua gigantesca comunidade de utilizadores, e o porquê da sua posição de rede social lÃder no século XXI.
Para ser sincero, causa-me alguma comichão constatar que uma das mais poderosas ferramentas alguma vez criadas pelo Homem é liderada parcialmente por um serviço cuja caracterÃstica mais distintiva é a imposição de barreiras. Quem, há uma década atrás, se servia da Internet para descarregar ficheiros para o computador ou manter o seu próprio espaço na Internet sabe a frustração que representavam os limites de velocidade de ligação e de espaço de armazenamento on-line. Tratavam-se de limites inevitáveis, que forçavam frequentemente os webmasters a gerir o conteúdo que publicavam de acordo com o espaço de que dispunham. Em meia-dúzia de anos, essas barreiras foram quebradas, e o Homem tem agora ao seu dispor um conjunto de recursos propÃcios à criação de canais de partilha de informação verdadeiramente livres. Não deixa, portanto, de ser vagamente irónico que o mundo se vire agora para uma ferramenta que, sobrepondo-se gloriosamente a esse processo evolutivo, impõe aos seus utilizadores um limite muito rÃgido nas suas comunicações: 140 caracteres.
Não pretendo aqui julgar a qualidade da comunicação que é possÃvel com apenas 140 caracteres. Compreendo que uma comunicação eficaz é simples e directa, sem rodeios, e que muitas das vezes uma centena de caracteres basta para dizer claramente o que se pretende. No entanto, acredito que deve assistir sempre aos interlocutores o direito de se conterem ou alongarem, de acordo com a necessidade e com o cariz daquilo que pretendem comunicar. A imposição de limites pode conduzir, em última instância, a uma reconfiguração forçada dos hábitos de comunicação do indivÃduo, e a um consequente empobrecimento desnecessário da qualidade da informação partilhada. Não esqueçamos o exemplo dos SMS que, por serem taxados de acordo com o comprimento da mensagem, obrigaram a uma reformulação da comunicação (aqui devidamente justificada) que transbordou eventualmente para fora do âmbito das telecomunicações móveis.
Tão ou mais interessante que isto é a constatação das sucessivas tentativas de transformar o Twitter numa antÃtese de si próprio. Diariamente surgem novas aplicações que permitem expandir, de alguma forma, as restritas funcionalidades do serviço, dando ao utilizador a possibilidade de incluir imagens e vÃdeos nas suas mensagens, encurtar endereços URL longos para economizar espaço3 ou até mesmo distribuir uma frase um pouco mais longa por vários tweets. Aquilo que deveria constituir uma ferramenta de comunicação clara e directa, acaba assim por se transformar num jogo, um exercÃcio desnecessário de elasticidade que obriga os interlocutores a contorcerem a sua própria comunicação, ou a encontrar formas de contornar as limitações que o serviço lhes impõe. Ao ponto de achar que pouco me surpreenderia se a venda de caracteres adicionais para uso no Twitter acabasse por se revelar um negócio rentável.
Este artigo faz uso de exactamente 5565 caracteres. Seriam necessárias 40 mensagens para o reproduzir no Twitter e, mesmo dispondo de uma tremenda capacidade de sÃntese, dificilmente a sua essência poderia ser veiculada de forma minimamente fiel em apenas 140 caracteres. Contra esta constatação atentam normalmente os apoiantes do Twitter, afirmando que «se não o consegues dizer em 140 caracteres, não o digas»4. Esta afirmação pressupõe uma clara associação da interacção e do diálogo humanos a uma ideologia de mercado (na qual o poder de sÃntese pode decidir a taxa de sucesso da comunicação) e demonstra uma incapacidade de estabelecer uma distinção entre diálogos pessoal e comercial.
- Quase sempre disfarçada de entrevistas a Biz Stone. ↩
- Se não imediato, a médio-longo prazo. Convém não esquecer, ainda assim, que há já empresas a lucrar com a rede social, vendendo seguidores (followers) a utilizadores à procura da sua audiência. ↩
- Observe-se que esta obrigação resulta da decisão do Twitter em desafiar parcialmente o próprio conceito de hipertexto, uma das mais sólidas fundações da Web. ↩
- Trata-se de uma citação directa de uma popular utilizadora do Twitter, a propósito deste incidente. ↩



